Archive - 2015 - Blog entry

October 29th

ID

Há alguns meses descobri que minha cédula de identidade, emitida em Porto Alegre no ano de 1996, não é mais aceita para algumas finalidades. Ao pesquisar o assunto, fiquei sabendo que, vivendo no estado de SP, tenho que solicitar um novo registro geral (ou seja, ele não é tão geral assim, né?). Agendei no poupatempo de Caraguatatuba um horário para mim e já aproveitei para também fazer o documento para minha filha.

Ontem acordamos cedo e tomamos a estrada. Chegando lá, fizemos primeiro o procedimento para ela. Fomos bem atendidos, tudo muito rápido. Mas na minha vez, fiquei curioso com algumas perguntas que a simpática atendente me fez:

  • Há quanto tempo o senhor vive no estado?
  • Por que motivo mudou-se para cá?
  • Pretende permanecer no estado?

Acho que tinha mais uma ou duas questões do mesmo tipo, das quais não lembro exatamente. Eu tinha respostas bem consistentes para todas as perguntas, é claro. Mas fiquei pensando em duas coisas: o possível constrangimento que perguntas como essas podem causar em pessoas que não consigam responder; e também o que é feito com as respostas. Será que existem estatísticas de quantas pessoas se registram sem ter certeza se vão permanecer? E se a pessoa dá uma resposta contrária ao que a burocracia espera, o que acontece? Esse dado fica registrado em algum lugar?

Se soubesse antes, acho que teria inventado umas respostas melhores. "Nem sei há quanto tempo estou aqui, vim pra roubar emprego de vocês, fico até ser procurado".leia mais >>

September 5th

Quarta Conferência Municipal de Cultura de Ubatuba

Sim, Ubatuba é uma cidade onde a gente anda de bicicleta, vai à praia, percorre trilhas e reclama de mosquitos. Também é um lugar onde se encontram vegetais orgânicos e peixes produzidos localmente. E onde convivem muitas culturas.

Mas talvez mais importante, Ubatuba é uma terra onde mesmo em um sábado chuvoso no meio de um feriado estendido, dezenas de pessoas passaram o dia inteiro debatendo políticas culturais para o futuro da cidade. Podia ser melhor. Podia ser mais claro. Podia ser mais efetivo. Teria mais gente, não fosse uma série de erros que começaram dois anos atrás. Os cinquenta que estavam presentes hoje deveriam ter sido cento e cinquenta. A gente podia ter perdido menos tempo e ter feito mais. Sempre.

Mas chegamos ao fim do dia. E chegamos ao fim de um processo de dezesseis encontros, que recupera um processo de dois anos, que recupera um processo que vem desde a década passada. E mesmo com todas as ressalvas e mesmo com todo o cansaço ficou uma sensação positiva. De que é até possível estragar, por falta de habilidade, um processo coletivo. Mas que enquanto houver gente disposta a recuperá-lo, existe esperança. E o brilhante insight de uma amiga e agora colega conselheira, de que Ubatuba não é só a capital do surf, da mata atlântica, da economia solidária (e da cultura pós-digital). Pois é, tem mais: Ubatuba é boa de resistência coletiva. Este foi somente um pequeno episódio.

E fico feliz de pela primeira vez na vida ser integrante de um conselho de políticas públicas, ocupando a cadeira de cultura urbana e digital. Vamos em frente, que temos um plano a redigir, aprovar e implantar. E agora com mais comunicação pela internet, afinal tô na área.

July 25th

Gerações

A chuva deita-se leve sobre Ubatuba, uma camada conectando as vozes a conversar na sala, uma guitarra distorcida experimental do outro lado da casa, a ocasional tosse da pequena e algum suspiro do bebê. Sobre essa base espontânea, meu telinha soa de tempos em tempos avisando de mensagens que chegam. Imagino o que são, mas só as lerei daqui a pouco. Antes preciso escrever um texto, beber algumas cervejas e digerir o momento.

O som homogêneo da chuva sobressai e leva a mente para longe. Há poucos minutos, comentei com meu pai que o destino todos sabíamos, só o itinerário e o tempo é que variavam.

É curiosa essa coisa das gerações. Eu cresci de certa forma habituado à existência de bisavós vivos, presentes e relativamente lúcidos. Conheci uma bisavó materna e todos os bisavós e bisavôs paternos. Com os últimos, recordo de muitos episódios concretos na infância, adolescência e juventude. Minha última lembrança da (bisa)vó Ruth, por exemplo, é de um telefonema em que ela mandou um beijo para Carol, então minha nova namorada naquela época em que eu ainda me acostumava com a vida em São Paulo. Isso aconteceu já neste milênio de agora. Eu era maior de idade, já andava com a mulher que um dia viria a ser mãe de meus filhos, e ainda falava ao telefone com a minha bisavó. Pouco tempo depois ela se foi, a última de sua geração diretamente ligada à minha existência.leia mais >>

July 2nd

Pre-crime

Dos motivos que me fazem odiar essa coisa das pessoas deixarem de usar email e passarem a usar somente as mensagens particulares do Facebook:

Há pouco recebi uma mensagem de um contato do FB perguntando sobre um texto meu. Colei na caixa da mensagem o link para o ebook Repair Culture cuja versão preliminar eu publiquei há alguns meses. Quando apertei "enter" para enviar a mensagem, o Facebook abriu uma camada por cima de toda a minha tela avisando que eu estava enviando um link perigoso, ou algo assim. Chocado, até esqueci de tirar print, vou fazer isso se acontecer de novo.

Quer dizer que eu estou em uma conversa "particular" com uma pessoa que está em minha rede de contatos (e vice-versa, como é obrigatório no FB), e tento mandar um link para o MEU site, hospedado no MEU servidor, e a empresa estadunidense que propicia nossa conversa decide me colocar em suspeição? E se eu não tivesse certeza de que o link é legítimo? Será que meus links estão sendo bloqueados em outras conversas também?leia mais >>

May 11th

Mortovivo telefonia imóvel

Aí estava eu sábado à tarde numa sala de espera de hospital (história desimportante, não vou perder tempo contando) quando recebo um SMS da Vivo. "Você já gastou o limite de dados do plano no mês, mande mensagem se quiser contratar mais". Tive certeza que era engano deles, porque raramente uso sequer um quarto do meu plano de 4Gb mensais.

Veio domingo e percebi que a internet no celular estava extremamente lenta. Liguei lá. Expliquei. Caiu. Não ligaram de volta. Liguei de novo. Expliquei. Caiu. Me ligaram de volta. Disseram que eu tinha mesmo esgotado - em nove dias havia supostamente baixado 5.9Gb no celular. Falei que estava errado, no meu ritmo usual de consumo demoraria alguns meses para baixar isso tudo. Passaram para o "setor técnico" onde um rapaz simpático foi verificar e descobriu que um único acesso no sábado à tarde, começando às 17h e pouco, havia consumido quase 5Gb em cerca de uma hora. Argumentei com ele que nesse horário estava numa sala de espera no hospital e, com a velocidade que a Vivo oferece, nem que eu quisesse conseguiria baixar 5Gb em uma hora. Na verdade, nem se estivesse de frente para a antena eu conseguiria. Argumentei que o contador do android fala que eu consumi 850Mb ao longo de trinta dias. Ele falou então "isso deve ser erro no nosso sistema, vou passar de volta para o comercial para que voltem sua conexão à velocidade original". Ainda perguntei "não vou ter que pagar por esses dados, né?". Ele falou "não, não vai precisar". Aguardei mais uns dez minutos de musiquinha ruim e a ligação caiu. Não me ligaram de volta.leia mais >>

April 25th

Wu wei

Wu-wei

Na busca do conhecimento, todos os dias algo é adquirido,

Na busca do Tao, todos os dias algo é deixado para trás.

E cada vez menos é feito

até se atingir a perfeita não ação.

Quando nada é feito, nada fica por fazer.

Domina-se o mundo deixando as coisas seguirem o seu curso.

E não interferindo.

Tao Te Ching 道德經 (Cap.48)

February 26th

Em extinção...

Cada vez mais difícil de achar:

  • Desodorante sem antitranspirante
  • Tempero industrial sem glutamato monossódico
  • Derivados de milho sem transgênicos
  • Água potável nas torneiras de São Paulo (essa coisa amarelada que escorre por aqui não conta)

February 24th

Rituais de chegada

No dia em que minha filha nasceu, em 2010, a felicidade me cercava. Eu chorei, transbordei de vida de um jeito que só que já sentiu entende. Mas ninguém me ofereceu um charuto. Eu nem tinha pensado nisso antes do dia, estava daquele jeito de primeiro filho que a gente flutua e as coisas vão levando, e de repente já foi e nem viu direito. Uns dias depois meu sogro trouxe uma caixa de excelentes cigarrilhas, mas já não era a mesma coisa. Tanto é que a caixa durou ainda alguns anos.

Há algumas semanas, estava eu debaixo de uma chuva leve esperando um barbeiro que se atrasara. Para fugir da garoa, entrei na tabacaria ao lado. Topei com um habano aparentemente legítimo, e decidi que ele me acompanharia na missão vindoura.

Estou, estamos, em São Paulo desde ontem. Aguardando mais uma criança que em algum momento das próximas semanas deve vir ao mundo por obra de nossa união, se possível por arte de nossas próprias mãos. Estou sumindo um pouco mais das redes nesses tempos. Mergulhando em um tipo de experiência tão antigo quanto a humanidade.

E dessa vez tenho até um habano pra comemorar quando vier o dia.

Até já.

February 12th

Escolhas

Indícios de termos feito boas escolhas na vida:

- Filha, que tal faltar à escola hoje e ir à praia?

- Não pai, prefiro ir à escola.

E ela adora praia. Mas a escola faz tão bem para a vida dela que a gente entende e se enche de orgulho de participar.

O que não quer dizer que não tentaremos outra vez se amanhã o calor se repetir ;)