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pt-brO reveillon das muitas barreiras - parte III
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<p><em>(continuando o causo que comecei a contar </em><a href="http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-i" rel="nofollow"><em>aqui</em></a><em> e </em><a href="http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-ii" rel="nofollow"><em>aqui</em></a><em>)</em></p>
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<p>O segundo dia do ano amanheceu aos poucos. Vi duas ou três vezes a luz do sol pela janela, mas não dei atenção. Contabilizava as sequelas - as pernas puxavam um pouco, nada de grave. A garganta estava pior - a curta noite anterior e a quantidade de chuva que eu tinha tomado tinham deixado sinais. Doía do fundo da boca até o ouvido esquerdo. Levantei, tomei uma colher de mel e voltei para a cama. Helicópteros passaram algumas vezes pelo céu.</p>
<p>Acordei de verdade com a Thalita me pedindo o telefone da pousada. Foi ao telefone público na vila para falar com o pessoal que estava lá. Também não conseguiu com o número que tínhamos, mas ligou pra Ubatuba, pediu pro pessoal entrar em contato com a galera na pousada para que ligassem de volta (o telefone público da Barra, felizmente, recebe ligações). Voltou um pouco tensa. O pessoal não gostou de ouvir que a estrada estava ruim. Ansiavam por roupas secas, sapatos, remédios, etc. Ainda estavam usando a roupa de festa de duas noites antes. Pediam ajuda.</p>
<p>Decidimos que uma parte da galera caminharia até a pousada levando os pertences básicos pra galera. Eu quis ficar por causa da garganta, me resguardando para os dias seguintes. Subiriam Thalita, Thyago e Daisy. Ainda acordando, aprontamos três mochilas o mais rápido que conseguimos, com as coisas do pessoal, água e o último pacote de biscoito de polvilho. Os três saíram. Fui lá atrás - no "queijo" - acenar para eles.</p>
<p>Subi até o quiosque para ver o estrago - de lá de cima até lá embaixo no rio, parecia estar no meio de um cânion. Uma camada de até um palmo de areia cobria boa parte do gramado, além de toda a horta. Zé Russo e Jamil trabalhavam para limpar o córrego até o rio. Depois saí para buscar limões. Não consegui encontrar nada perto da casa, então segui um pedacinho da trilha que vai até a nascente. Percebi a natureza ativa - plantas brilhando, borboletas e pássaros dando a impressão de trabalhar bastante. Ou talvez somente felizes com a luz e calor depois de tanta chuva. Agradeci a Oxalá pelo sol, secando tudo e a Ossanha pelos limões que acabei encontrando. Saudei Oxóssi e conversei com Oxum.</p>
<p>Dita me contou que haviam agora uma pinguela para atravessar o rio onde a ponte tinha rodado. Em casa, Cacilda contou com lágrimas nos olhos que a casa dela, apesar de ilesa até então, corria risco - o quarto fica a menos de dois metros de um barranco que ainda vai cair.</p>
<p>Fiquei feliz que a casa estava a salvo, razoavelmente acima do nível do rio. Tínhamos energia, comida para alguns dias, medicamentos e roupas limpas. Alguns diziam que passaríamos uma semana até poder ir embora.</p>
<p>Menos de duas horas depois da saída do pessoal, ouvi a voz do Michael na cozinha. Ele tinha saído da pousada, tomado uma carona para ver como estava a estrada, e descobriu que estava quase limpa até a primeira ponte quebrada, perto do dentista. De lá, tinha descido a pé. O pessoal na pousada não sabia que ele tinha ido tão longe. Depois de algum tempinho, fui telefonar para a pousada - ele tinha trazido o número certo. Falei com o Ricardo. O pessoal com as roupas e sapatos já tinha chegado lá - tomaram uma carona no fim do trajeto - e contou que a estrada estava muito melhor. Havia notícias de que existia um caminho possível para Guaratinguetá, e de lá para Sampa. Pediram que disséssemos ao Michael que não voltasse à pousada. O grupo que estava lá se dividiria mais uma vez - Jussara e Sandra voltariam para Sampa, o restante iria até onde fosse possível com um dos carros, e depois continuaria a pé até nos encontrar.</p>
<p>Fomos até a entrada do sítio para checar mais uma vez como estavam as condições. O rio continuava muito alto, e tivemos dúvidas se seria possível passar de carro por ali, tendo perdido quase um metro de largura do caminho. Mais tarde, o pessoal chegou. Todos felizes de estar de volta a casa.</p>
<p><img alt="" src="http://farm3.static.flickr.com/2678/4257968472_5a6236a3a3_d.jpg" /></p>
<p>No fim da tarde, quando pensávamos que não haveria mais surpresas, Renata chegou. Ela havia encontrado Sandra no centro de Cunha, deixado o carro no dentista e continuado a pé. Felizmente, conseguiu encontrar o sítio e chegou sem mais percalços. À noite, as meninas prepararam torta fria.</p>
<p>Na manhã do dia 03, mais uma missão. Thyago e Fernanda precisavam voltar a Sampa para trabalhar na segunda-feira. Eu, Carol e Daisy os acompanhamos, ajudando a levar as malas - Fernanda ainda tinha que levar o Cookie. Ricardo e Michael levariam os dois até o carro da Fê, que havia ficado na pousada dos Anjos, e continuariam até Cunha, para comprar mais alguns mantimentos - principalmente queijo - e quebrar o galho de trazer um pouco de gasolina pro Uno, que eu vacilei de não abastecer quando passei pela cidade. Jamil nos acompanhou, para ajudar a carregar as coisas. Renata também queria buscar alguns apetrechos que havia deixado no carro. A mala do Thyago estava pesada, e usamos um cajado para dividir o peso entre nós dois. Como a alça era muito grande, precisamos manter os braços dobrados de leve, ou a mala arrastaria no chão. Eu lembraria disso por dois dias.</p>
<p>O caminho estava muito melhor. A pinguela economizava a grande volta que a gente tinha precisado dar para evitar a ponte caída, dois dias antes. O barro também já estava bem mais seco. No caminho, mais uma vez contamos com o serviço expresso de notícias da roça: cada pessoa que passava contava mais um pouco sobre a situação em outros bairros, sobre a estrada para Guará ou sobre a família soterrada - somente a filha do Manolo sobrevivera, os outros corpos haviam sido encontrados. Alguém falou que ela mandou vender os animais e fechar o sítio, porque não quer voltar tão cedo para lá. Atravessamos a ponte quebrada - as duas cabeceiras ainda faltavam - e chegamos ao dentista. Uma égua e um potro novinho se escondiam atrás da casa. Nos despedimos de Thyago e Fê, e voltamos carregando coisas da Renata, pães e não lembro mais o quê.</p>
<p>À tarde, assistimos um filme na sala. Michael e Ricardo voltaram de Cunha com queijo e outras coisas. Ficamos sabendo que a filha do Manolo só sobreviveu porque tinha levantado para beber água, e na hora do soterramento a geladeira caiu em cima dela, com a porta aberta - o que lhe deu uma reserva de oxigênio para suportar algum tempo. À noite, mais um filme, e depois das onze saímos com o telescópio que a Su ganhou de natal para espiar a Lua cheia - delícia de visual, apesar da instabilidade do tripé. Mares & crateras ali, muito mais perto do que a gente costuma ver.</p>
<p>No dia 04 pela manhã, Michael e Ricardo saíram para ajudar nos mutirões que estavam reconstruindo as duas pontes estrada acima. Eu, Carol, Thalita, Aninha, Bila e Renata decidimos ir no sentido contrário, para verificar como estava a cachoeira. Havia algumas barreiras caídas no caminho, mas o mais impressionante foi ver o barranco que dá visão para a queda d'água. Um pedaço já tinha deslizado, e a estrada estava muito próxima da borda. Continuamos até lá embaixo, pedimos licença para entrar, e tivemos um certo alívio ao ver que, apesar do fluxo de água muito maior que o normal, a cachoeira ainda estava por lá, imponente e inteira.</p>
<p>Perto da hora do almoço, uma garoa leve sinalizou uma inversão em relação aos três dias de sol anteriores, mas logo parou. À tarde, alguns integrantes do mutirão chegaram na ponte logo depois da vila. Ricardo e Michael vieram junto. Eu e Mauro nos juntamos ao grupo. Eles traziam notícias - todos os pedaços da ponte que havia rodado foram encontrados no rio, rebocados por dentro d'água e recolocados no lugar. A primeira ponte também havia sido consertada. Para a ponte da vila, havia menos gente, mas ela estava quase intacta, apesar de deslocada cerca de dois metros para o lado. Carlinhos tinha uma catraca (eles usavam outro nome pra ela, mas esqueci - assim que alguém recordar eu publico abaixo). Quando vimos que não seria possível simplesmente arrastar a ponte inteira de volta para o lugar, começamos a desmontá-la. Eu, que não entendo nada de pontes, passei boa parte da tarde invertendo os pregos das travessas que o pessoal retirava - batendo com a marreta na ponta dos pregos de uns vinte centímetros para eles saírem do outro lado e adiantar a recolocação. Também ajudei a buscar uma pedra para escorar a ponte - e segui o conselho local de roubar um pêssego no caminho, que foi ainda mais saboroso quando lembrei do Chico Bento roubando goiabas do Nhô Lau. Saí do mutirão no fim da tarde porque precisava preparar branquinho e bicho-de-pé pra uma festa infantil.</p>
<p>Uma vez que a ponte tinha sido consertada, já tínhamos pelo menos como chegar com os carros na vila. Só restava a dúvida sobre o caminho de entrada do sítio. Colocamos duas tábuas compridas para marcar o canto onde não seria possível passar. O pessoal limpou um pouco do mato no outro lado, para deixar bem marcada a localização da grande pedra que havia no chão. Os três carros que restavam passaram rapidamente, e o caminho segurou bem a onda - sem mais quedas de barreira. Nenhum incidente. Alguém falou com o pessoal que mora na primeira casa depois da ponte para deixarmos os carros por lá até o dia seguinte (na verdade, não consigo ter certeza se isso aconteceu na tarde do dia 04 ou na manhã do dia 05, mas tenho quase certeza de que foi no dia 04 mesmo).</p>
<p>Depois da meia-noite, comemoramos o aniversário do Michael e soltamos os fogos que havíamos comprado para o reveillon. Fantásticos - pouco barulho, muita luz. Antes de dormir, alguém reafirmou a notícia que já havíamos tido na noite anterior: havia previsão de mais água para a região, com chances de cair uma chuva que podia durar mais de 12 horas. No dia seguinte, faríamos um churrasco para continuar a comemoração do aniversário. Decidimos que depois do churrasco iríamos todos embora.</p>
<p>O dia 05 já começou com pressa, todo mundo empacotando e encaixotando suas coisas. Fui correndo fazer o fogo para o churrasco, já achando que era complicado cair na estrada com a barriga cheia. Quando o fogo pegou e eu já ia temperar as carnes, veio a decisão. Não perderíamos mais tempo - o churrasco estava cancelado. A decisão era ir embora imediatamente. Levamos tudo para os carros que estavam no vizinho, enquanto Renata e Ricardo buscavam seus carros no dentista para ajudar na logística. Partimos em comboio. A estrada de terra estava castigada, mas sem os problemas graves de quatro dias antes. Paramos na pousada Sotaque Mineiro para pegar os carros que faltavam e redistribuir coisas e pessoas.</p>
<p>Seguimos até Cunha, paramos na Cidinha para comer alguma coisa e comprar água para a viagem. Um carro iria para Sampa, e os outros para Ubatuba. Não conseguimos informação sobre as condições da estrada Lagoinha - São Luís do Paraitinga. Eu e Carol ficamos para trás porque precisamos desentortar o protetor do carter e comprar parafusos para pôr de volta a placa do Uno que havia caído no dia primeiro. Já na estrada, vimos que os piores trechos - as pontes do Jacuí e Jacuizinho, entre outras - já haviam sido consertados, ou no mínimo gambiarrados.</p>
<p>Encontramos Thalita e Daisy na saída para a estrada de Lagoinha, e decidimos ir por ali mesmo. Mais alguns trechos com quedas de barreiras, trânsito em meia pista e lama na estrada. A entrada de São Luís estava bloqueada, com uma fila de carros esperando a liberação. Tomamos a Oswaldo Cruz em direção a Ubatuba. Na outra entrada de São Luís, a mesma cena: muitos carros esperando. Tínhamos escutado o boato de que o quilo do arroz estava sendo vendido a R$ 25 em São Luís, por conta da carestia de muitos e da ganância de poucos.</p>
<p>Um pouco adiante na estrada, conseguimos ver uma parte do estrago - um monte de construções destruídas à beira do rio. Mais um pouco de tristeza se somando ao cansaço - São Luís tem o carnaval mais animado da região e uma bela tradição cultural. Como será que vão reagir a essa perda imensa? Chegamos em Ubatuba alguns minutos antes dos dois carros que tinham saído antes - sem informação sobre a estrada de Lagoinha, eles tinham decidido andar os quilômetros a mais indo até a Dutra.</p>
<p>À noite, como bons gauleses, fizemos o banquete de fim de aventura - todas as carnes do churrasco foram trazidas dentro de uma geladeira de isopor, e não perdi muito tempo até acender a churrasqueira. Celebramos do nosso modo, e ficou a sensação de que não podemos reclamar de nada: uma circunstância natural que levou a algumas catástrofes nos encontrou todos juntos. Tivemos a oportunidade de testar nossa resposta coletiva à adversidade, e ela foi muito boa. Não tivemos nenhum acidente, e tivemos muito mais sorte do que todas aquelas pessoas que ainda estão - até hoje - isoladas em estradas de terra em Cunha. Não pude evitar de pensar em quão complicada é uma cidade que só tem uma saída - para Guaratinguetá. Ubatuba, com todos seus problemas, tem pelo menos três saídas por terra, além do mar. Certamente, nas próximas vezes a pequena bolsa de ferramentas e conveniências que eu levo no porta-mala do Uno vai virar um kit de sobrevivência mais completo.</p>
<p>Fica aqui um pedido para todo mundo que puder: por favor, mandem ajuda material e energética pro pessoal que continua isolado em Cunha e em São Luís. A situação por lá está bem complicada. Pouca gente tem a sorte que nós tivemos, e tenho certeza que histórias piores que essa - que na verdade não é nem um pouco ruim - ainda vão ser escritas. Existem várias iniciativas levando doações de alimentos e outras coisas para o pessoal de lá. Aqui em Ubatuba, a Câmara Municipal e a Guarda Mirim estão fazendo a logística.</p>
<p>Obrigado pela atenção. Agora sim, fim.</p>barreiraschuvascunhadeslizamentosreveillontauaçuriTue, 12 Jan 2010 04:38:02 +0000felipefonseca6848 at http://efeefe.no-ip.orgO reveillon das muitas barreiras - parte II
http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-ii
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<p><em>(continuação </em><a href="http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-i" rel="nofollow"><em>desse post</em></a><em>)</em></p>
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<p>A chuva havia parado totalmente. Percorremos o curto trecho de asfalto até a saída para a estrada de terra da Barra sem problemas. Em pouco tempo, paramos no mesmo lugar da noite anterior: um rio cruzava a estrada. Nem sinal do carro que estava lá na madrugada. Descemos para verificar se era possível atravessar. Peguei um pedaço de madeira para testar a profundidade. Em alguns pontos, chegava a meio metro. Em um passo equivocado, afundei tanto a perna que a bota encheu de água - encharcando de novo a meia que tinha secado pela manhã.</p>
<p>O vizinho com a Ranger, que nos acompanhou desde a pousada, tentaria passar primeiro - pela esquerda, que parecia mais tranquila. Como não sabíamos se poderíamos seguir em frente com os carros normais, Thalita e Irene iriam de carona na caçamba dele. Ele acelerou - até um pouco demais na minha opinião - e passou corcoveando. Decidimos tentar. A Ecosport do Ricardo passou fácil, a gente não teve problemas com o bom e velho Uninho, e nem o Michael com a Saveiro. Já o Gol da Irene passou, mas logo depois apagou. Tentamos empurrar, e nada. Abrimos o capô. É um saco chegar nas velas do Gol - para tirar o filtro de ar e o suporte dele, precisamos de uma chave de fenda - que felizmente um metarecicleiro sempre tem por perto ;). Mas as velas não pareciam ter molhado. Acabamos amarrando o Gol na Ecosport e seguimos jornada.</p>
<p><img alt="tentando dar um jeito no carro da Irene" src="http://farm5.static.flickr.com/4066/4257973148_e4645e7929_d.jpg" /></p>
<p>Pouco mais de um quilômetro adiante, mais uma parada, ao lado da pousada Sotaque Mineiro. Um mau sinal: nem a ambulância nem o jipe da polícia (acho que era uma Troller ou uma JPX, não tenho mais certeza) conseguiam ir adiante. Um caminhão da Elektro passava em sentido contrário, e o pessoal nos deu mais alguma informação - havia muitas barreiras caídas na estrada de terra, e mesmo que fossem limpas não haveria como chegar na Barra porque algumas pontes haviam "rodado" - mais um termo que adicionei ao meu vocabulário.</p>
<p>O dono da Ranger disse que tinha autorização para deixar o carro no sítio em frente, e que continuaria a pé. Deixamos também os carros ali, e nos dividimos em dois grupos: Eu e Carol, Daisy, Thalita, Thyago e Fernanda desceríamos os oito quilômetros de terra, e o restante tentaria ficar pela pousada até a gente dar notícia. Saímos meio apressados, levando um pacote de polvilho, os queijos e uma garrafa de água, além de casacos e alguns pertences pessoais.</p>
<p>Logo nos primeiros metros, entendemos por que era impossível seguir de carro. Marcas de pneus grandes. Entre os pneus, a lama bateria no meu joelho. Duas grandes quedas de barreiras. Seguimos em frente. Descer aquela estrada de terra com aquelas pessoas não poderia deixar de evocar a sociedade do anel - os hobbits saindo pela primeira vez do Condado. Fellowship of the polvilho!</p>
<p>Eu nunca tinha feito aquele trecho a pé - no máximo tinha escutado a Irene contando de quando desceu sozinha, durante a noite. Existe uma certa magia de conhecer a estrada aos poucos - um outro ritmo, evocando a outras épocas. Dias depois eu li em algum lugar que Cunha tem mais de 2000km de estradas de terra. Pensei bastante na época da colonização, na Estrada Real que ligava as Minas Geraes aos portos. Um jipe da polícia voltava. Não haviam conseguido passar. Marcas de trator, também. Comentamos sobre como seria bom ter um cavalo naquela hora.</p>
<p><img alt="a estrada virou rio..." src="http://farm3.static.flickr.com/2695/4257972256_e76195a41d_d.jpg" /></p>
<p>Fomos ultrapassando uma série de obstáculos - perto do Marianinho, um pedaço da estrada tinha virado rio, com correnteza e tudo. Precisamos margear por cima da grama, segurando com cuidado no arame farpado. Mais para a frente, outra barreira no meio da estrada. Acho que foi nessa que o Thyago afundou o pé na lama e o tênis ficou - precisou se equilibrar pra voltar o pé no lugar exato e puxar de novo. Na barreira seguinte, uma grande árvore tinha atravessado a estrada - muitos galhos e arame farpado. Do outro lado, um cara perguntava se havia como passar. Falamos com as moradoras da casa em frente, que contaram que um pessoal já tinha atravessado por ali. Eu e Daisy pedimos licença para cruzar a porteira e passar por dentro do terreno delas, costeando a faixa de terra entre uma construção e o rio que estava caudaloso. Chegamos do outro lado antes do resto da galera.</p>
<p><img alt="barreira "normal"" src="http://farm3.static.flickr.com/2795/4257971830_5966e33cff_d.jpg" /></p>
<p>Depois, mais uma barreira "normal" em uma curva, e na sequência uma que ainda assustava dos dois lados - barrancos íngremes acima da estrada à direita, e para baixo à esquerda. A cada cinco ou dez minutos, encontrávamos alguém passando, geralmente em sentido contrário. Thalita conversava com todos, pegando dicas da estrada e notícias sobre a família do Manolo. Em uma dessas conversas, um pai e um filho nos avisaram que a barreira seguinte seria a pior. De fato, a barreira logo antes da pousada Barra do Bié era uma das maiores, e tinha cara de que ainda não tinha estabilizado. Passamos com cuidado, e quando estávamos quase no fim ouvimos o Mauro chamando - ele e Irene se juntavam ao nosso grupo.</p>
<p><img alt="a maior barreira que passamos" src="http://farm5.static.flickr.com/4013/4257214523_1779efda62_d.jpg" /></p>
<p>Na frente da pousada Barra do Bié, encontramos dois ou três casais de Sampa em roupas de férias. Tinham esperança de ir embora naquele mesmo dia. Contamos para eles sobre as condições da estrada de terra e da Cunha-Guaratinguetá. Eles não levaram muita fé no que falamos, disseram que não era possível, precisavam voltar. Impossível, pessoal. Continuamos. Na ponte ao lado do dentista, tivemos certeza de que tão cedo não seria possível chegar na Barra de carro - os troncos da ponte continuavam, mas as travessas das duas cabeceiras tinham sumido. Pelo rastro da areia, vimos que o rio tinha passado ali por cima. Na reta seguinte, encontramos dois homens que estavam vindo do local do acidente. Um deles, descobri mais tarde, morava ao lado da casa que foi soterrada. Ambos denotavam cansaço e tristeza. Contaram que a filha do Manolo tinha sobrevivido, mas por enquanto era a única. Estavam indo até a pousada para telefonar e chamar o resgate de helicóptero.</p>
<p><img alt="seguindo a estrada" src="http://farm3.static.flickr.com/2578/4257213839_56a2ee0452_d.jpg" /></p>
<p>Perto da ponte de concreto - que suportou as chuvas bravamente - encontramos o Zezé, que nos acompanhou por um trecho e contou mais sobre o acidente. Já tinham encontrado alguns corpos, mas ainda faltava o filho da sobrevivente. O pessoal estava cansado, mas ainda tinha esperança. Enquanto conversávamos com ele, ouvimos o helicóptero chegando. Um grupo de pessoas o seguiu enquanto ele descia no terreno seguinte, da veterinária. Alguém avisou pra tomarmos cuidado, pois os cachorros eram bravos. O pessoal do resgate pôs macas e outros equipamentos em uma picape que deve ser do pessoal de lá, e partiram o mais rápido que puderam. Durante todo o trecho em que passamos por ali, o clima ficou um pouco pesado. Ficamos mais em silêncio, tentamos ficar mais próximos, tentando digerir o episódio todo.</p>
<p><img alt="fazendo o desvio por causa da ponte quebrada" src="http://farm5.static.flickr.com/4066/4257213455_1d47f61e61_d.jpg" /></p>
<p>Encontramos mais um pessoal que contou que a ponte seguinte tinha rodado totalmente - não sobrara nada. Não havia como atravessar o rio naquele ponto, então precisaríamos dar a volta pelo mato. Ouvindo as indicações do pessoal, passamos uma porteira, atravessamos um rio, subimos até a casa de um pessoal - André, se não me engano - e perguntamos sobre o caminho. "Não desçam pelo caminho da porteira amarela". Passamos por um chiqueiro e alguns perus, continuamos por uma trilha. Passamos uma cancela, descemos um caminho e lá embaixo percebemos que havíamos passado pela porteira amarela - ela não era tão amarela assim. Chegamos de novo ao rio, sem passagem. Tornamos a subir o morro, passamos por uma casa vazia com um carro ao lado. Não lembro em que ponto (acho que na verdade foi antes da porteira amarela), seguimos uma trilha por dentro de um pedacinho de mata e ao fim pulamos uma cerca de arame farpado - Thyago ainda segurou o arame para um grupo que vinha do outro lado. Passamos por mais uma casa, cumprimentamos o pessoal, Thalita deu notícias rápidas sobre o caminho. Acabamos saindo logo depois da ponte que tinha rodado. Nem sinal de madeira.</p>
<p><img alt="o rio multiplicado" src="http://farm5.static.flickr.com/4009/4257969816_c120871dc3_d.jpg" /></p>
<p>Estávamos chegando na Barra. Lá de cima da estrada, vimos o rio cujo leito normalmente não ultrapassa os quatro metros - havia multiplicado de largura. Lembrei naquelas imagens da foz ou do delta de grandes rios. Não esqueço a sensação de estar chegando em casa, reconhecendo cada curva da estrada. Ao chegar na Igreja da Barra, encontramos todo o pessoal que mora por perto. Demos as notícias da estrada. Dita nos abraçou, chorando, feliz porque teve notícias nossas. Entrei na fila do telefone público, mais disputado do que nunca. Tentei falar com o pessoal na pousada, mas o número que eu tinha estava errado. Acabei ligando a cobrar para meu pai em Porto Alegre, e pedindo que ele encontrasse o número certo na internet e ligasse pra contar que havíamos chegado bem.</p>
<p><img alt="mais uma do rio" src="http://farm3.static.flickr.com/2784/4257969374_77a473aef1_d.jpg" /></p>
<p>A ponte depois da vila também tinha sofrido. Só não desceu o rio porque ficou escorada em um Pinheiro. Segundo o Zé Russo, eles tinham ficado isolados por lá - o nível da água subiu mais de três metros, ficando cerca de um metro acima da ponte. Na entrada do nosso sítio, um pedaço do caminho tinha caído dentro do rio - tivemos dúvidas se seria possível passar ali com os carros. Dentro do sítio, um pouco de estrago por conta da chuva - areia por todo lado, uma barreira rompida - mas nada que ofuscasse a sensação de voltar a uma área de conforto, e ver que o mais importante continuava lá. Entramos em casa, os cachorros estavam doidos, e o chão um nojo. Uma força-tarefa rápida para limpar tudo, e finalmente pudemos chegar - banhos quentes, roupas limpas... e meias secas!</p>
<p>Nosso plano para o dia primeiro era um churrasco, então na noite anterior havíamos deixado as costelinhas de porco descongelando. Catei limão para somar ao sal grosso e assei-as com batatas. Mauro abriu o barril de 5l de Heineken que a gente deu de natal para ele. Nos sentimos merecedores daquela celebração. Nessa noite, fizemos pouca música e fomos deitar cedo, depois que o pessoal foi assistir TV em um quarto e souberam sobre o desastre em Angra.</p>
<p><em>Mas o relato ainda não terminou. Amanhã eu conto sobre <a href="http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-iii" rel="nofollow">a reunião da galera</a>.</em></p>barreiraschuvascunhadeslizamentosreveillontauaçuriMon, 11 Jan 2010 03:49:48 +0000felipefonseca6829 at http://efeefe.no-ip.orgO reveillon das muitas barreiras - parte I
http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-i
<p>O reveillon das muitas barreiras<br />
ou<br />
causo sobre a expectativa de retorno à rotina e aos planos<br />
ou <br />
saindo da rotina - e querendo voltar</p>
<p>Pela primeira vez em muitos anos, o grupo não passaria a noite de reveillon na roça. Reservamos uma mesa para quinze no restaurante Quebra Cangalha, quase na saída de Cunha. Nos encontraríamos no sítio nos dias anteriores, e iríamos todos juntos à cidade na noite de 31 de dezembro de 2009.</p>
<p>Sabíamos que nos esperava um ano intenso. Também sabíamos que a chuva caía forte e traria algum transtorno. A semana já havia avisado. Alguns dias antes, o Mauro precisou esperar o rio baixar em uma ponte, depois outra e mais uma. Chegou ao sítio com algumas horas de atraso. O comentário era que desde 1985 - o ano do Rock in Rio - não acontecia algo parecido. Sabendo disso, nossa saída para o reveillon na cidade contaria com alguns cuidados especiais - para percorrer os dez quilômetros de estrada de terra e outros dez de asfalto em quatro carros, levaríamos casacos impermeáveis, rádios de comunicação, duas cordas grandes e duas lanternas. A roupa de festa seria vestida depois que chegássemos a Cunha. Na ausência de galochas propriamente ditas, calcei as botas de neve que comprei em liquidação no dia mais quente do verão na Alemanha - 34 graus em uma cidade da Saxônia, ainda mais insuportáveis quando precisei provar o tamanho das botas. Também tomei o cuidado de deixar o celular carregado.</p>
<p>Durante a tarde do dia 31, a chuva descia suave. Ao contrário do episódio anterior, quando o rio transbordou cedo e foi esvaziando, o fim da tarde veio e o nível do rio ainda não chegara à ponte. Encaramos como um bom sinal - a chuva devia parar logo, e o nível do rio voltaria ao normal - e saímos. Na estrada de terra, patinamos um pouco, mas nada de mais. Ao chegar no centro de Cunha, a chuva caía mais forte. Encontramos a Fê, que havia vindo de São Paulo. Ainda era cedo - matamos um pouco de tempo na Doceria da Cidinha e depois bebendo Wolkenburg no Café & Arte. Passadas as nove horas, nos armamos de guarda-chuvas e armamos a logística para buscar os carros e rumar ao Quebra Cangalha, para ocupar nossa mesa de 15 pessoas. A água apertava.</p>
<p>O jantar transcorreu bem, mas não consegui deixar de perceber pela janela às minhas costas que a chuva ficava cada vez mais forte. Pouco depois das badaladas do ano novo, estouro de espumantes, brindes e telefonemas, decidimos que não podíamos perder muito tempo para voltar. Chovia tanto que nem conseguimos assistir aos fogos na cidade, a poucos quilômetros dali. Tomamos a Cunha-Parati. No caminho até a estrada de terra para o bairro da Barra, passamos por duas quedas de barreiras - "barreira" era uma palavra que nas próximas 24 horas entraria de vez no meu vocabulário. O trânsito estava em meia-pista, mas conseguimos passar, cada vez mais cautelosos.</p>
<p>Depois de menos de um quilômetro de estrada de terra, passamos por uma Kombi branca cheia de gente, parada. Poucos metros adiante, nosso primeiro carro parou de repente. Um rio atravessava a estrada. Ricardo puxou sua lanterna-holofote e apontou para a frente. Um SUV, talvez uma Pajero TR,4 estava lá no meio, cercada de água por todos os lados. Não sairia tão fácil. Pelo menos não havia sinais de pessoas dentro dela. Na hora, me lembrei da conversa que tive com a Thalita - se acontecesse de novo o que o Mauro havia passado na semana anterior, o que fazer? Minha resposta foi rápida - vou direto esperar na pousada mais próxima, talvez a dos Anjos. Ela comentou que a Moara também era uma boa. Chegamos a uma situação parecida, o que faríamos? Confabulamos, e decidimos voltar ao restaurante - em último caso, ficaríamos por lá até eles fecharem as portas. Pelo menos, era seco e teria comida e banheiros.</p>
<p>De volta à Cunha-Parati sentido cidade, passamos de novo por uma das barreiras que havíamos cruzado antes. Alguns quilômetros depois, outra barreira - e uma das grandes! A pista estava totalmente tomada por barro & árvores. Carros parados do outro lado, e a sensação de que não passaríamos. A barreira tinha caído nos vinte minutos anteriores - tínhamos passado por ali na ida, sem problemas. Sinalizamos para o carro que estava na frente - Fê e Thyago - que fizesse o retorno o mais rápido possível. O barranco parecia ainda não haver terminado de cair. Precisávamos de outro refúgio para escapar da chuva até que a estrada de terra para nosso canto estivesse liberada.</p>
<p>Decidimos tentar a última pousada antes da saída do asfalto: alguns de nós já conheciam os donos atuais da Pousada dos Anjos, e também a dona anterior, que montou o espaço e o manteve até perder o filho, há alguns anos. Fica à beira da Parati-Cunha, km 58. Um carro foi na frente para conversar - afinal, estávamos em quinze. Fomos recebidos muito bem pela Katia e pelo Marcos: tinham organizado ali mesmo uma festa junto com o pessoal do restaurante Drão - eu tinha lido sobre isso num cartaz na Cidinha, algumas horas antes, sem dar a devida atenção. O pessoal da pousada avisou que não teriam bebidas para todos, mas nos ofereceram teto para escapar da chuva, banheiros e algum conforto em cadeiras ou onde conseguíssemos nos encostar. Todos os quartos estavam lotados.</p>
<p>Aceitamos o que o destino ofereceu, e fomos aproveitar a festa. Ainda tínhamos guardado uma garrafa de espumante, que foi prontamente aberta e servida. Curtimos as duas últimas músicas da excelente banda que se apresentava. Depois dançamos, conversamos, conhecemos pessoas, imprecamos contra a chuva. Como ela não cedesse, depois das quatro da manhã o pessoal começou a procurar cantos para fechar os olhos. Alguns alinharam cadeiras para fazer as vezes de camas; outrxs encontraram poltronas mais confortáveis espalhadas pelo salão. Aninha, que não se sentia bem, foi eleita merecedora de uma confortável cadeira de pano. Ainda demovi a Su de uma tentativa de descer a estrada de terra, acompanhando o pessoal que tinha uma Ranger. Não teria dado certo.</p>
<p>Eu e Carol para o Uno e reclinamos os bancos ao máximo. Me senti grato pela neurose de manter no carro o cobertor vermelho roubado em um voo da TAP. Minhas botas, espaçosas, disputavam espaço com os pedais do carro. De alguma forma, meus pés estavam molhados dentro delas - depois de muito subir e descer do salão até os carros, ajudando as pessoas ou levando e trazendo coisas, alguma água havia passado das pernas às meias. Também sentia água nas costas, dos poucos segundos em que tirei a jaqueta impermeável antes de entrar no carro - não queria molhar o banco. Abrimos pequenas frestas nas quatro janelas, para os vidros não embaçarem demais. Ainda pendurei a jaqueta por dentro da janela para amenizar um poste de luz que apontava para dentro. Olhando para toda aquela chuva escorrendo pelo pára-brisa, percebendo outra vez o cobertor, o rádio de comunicação, a jaqueta molhada, e pensando em barcos, kits de sobrevivência e autonomia, me permiti adormecer quando a claridade do sol já começava a se esgueirar através das nuvens acinzentadas. Ouvindo o batucar amplificado das gotas no teto do carro, senti feliz o toque da mão da minha companheira de vida e musa.</p>
<p>Acordamos por volta das nove. A chuva continuava a cair, em ritmo constante. Michael conversava com seu Nino, um caipira da região vestido com chapéu e uma longa capa de chuva. Segundo ele, depois que a chuva parasse, ainda seriam necessárias algumas horas até a água baixar e podermos voltar à Barra. Entreouvimos que, se a situação não mudasse, a pousada não teria comida suficiente para a população crescente - além do nosso grupo, mais algumas pessoas haviam ficado por lá, além da banda que não conseguiu ir embora, e de mais alguns visitantes involuntários que chegaram pela manhã, sem outro destino possível. Mas multiplicaram os pães servindo fatias torradas, acompanhadas de manteiga, queijo e requeijão de prato. Sandra ofereceu a mistura de Chai que tinha comprado no Café & Arte na noite anterior - excelente para esquentar. Fomos nos reencontrando - todxs com cara amassada. O dono da pousada tinha até trazido casacos para o pessoal durante a madrugada. Ricardo e Michael conversavam sobre autonomia, geradores elétricos, redes alternativas de energia. A pousada também preparou garrafas de café para todxs. Som rolando de novo, conversas. Não pude deixar de lembrar da Taberna no Fim do Mundo, do Neil Gaiman.</p>
<p>Em algum momento da manhã, a energia acabou. Logo, estávamos apagando velas, economizando para uma eventual noite sem energia. Usar o banheiro ficou mais complicado no escuro. A pousada também dependia de bomba para encher a caixa d'água, então era necessário economizar na descarga. A chuva não dava sinais de parar - até reduzia em alguns momentos, mas depois voltava com carga total. Alguém trouxe cartas e dominó. Mais uma família de refugiados da chuva chegando - tinha saído da casa de alguns amigos logo pela manhã, mas ficaram presos na estrada. Pessoal que tinha dormido nos sofás veio oferecer as vagas para quem precisasse. Cooperação rolando muito bem. A gente tentava fazer o tempo passar. Alguns voltavam aos carros para tentar dormir mais um pouco. Eu tirei as meias encharcadas e as pendurei para secar.</p>
<p>A volta da energia recebeu uma salva de palmas, assovios e comemorações. Aproveitamos que o telefone da pousada funcionaria de novo - estávamos fora da área de cobertura de qualquer operadora móvel - e ligamos para o telefone público perto do sítio. A situação não era boa - não havia como atravessar o rio, uma das pontes havia sumido. Um dos últimos chegados à pousada contou que havia ligado para a Dersa, que tinha se comprometido a acionar tratores para liberar pelo menos a pista até Cunha.</p>
<p>Algum tempo mais tarde, eu estava fora da pousada conversando com seu Nino e Thalita, e escutamos um motor de carro. Pensamos que era mais algum visitante que chegava em busca de abrigo, mas ninguém apareceu na pousada. Mais um motor passando rápido, e ainda outro. Pegamos guarda-chuva e capas, e descemos a caminho da estrada. No caminho, vimos que a pequena queda d'água na entrada tinha virado uma cachoeira. Na pista, um fusca descia acelerado. Sinalizamos para que ele parasse. O vidro abriu lentamente. O caipira que dirigia não parecia entender se queríamos carona ou informação. Nos contou que a estrada até Cunha tinha sido liberada. Uma picape também parou para ver se precisávamos de ajuda, mas já estávamos correndo de volta para a pousada. Contamos a notícia para todos, e juntamos nosso grupo para conversar sobre o que faríamos. Não havia condições de ir embora - tínhamos muita coisa no sítio, incluindo seis cachorros presos dentro de casa. Além disso, não havia saída de Cunha - a estrada estava liberada só até a cidade, mas de lá não havia como ir a Guaratinguetá ou lugar algum.</p>
<p>Decidimos que um carro iria a Cunha para comprar mantimentos para nós e para a pousada. Fomos eu e Michael na Saveiro dele. Muitas barreiras caídas na estrada, algumas delas assustadoras. O acesso à pousada Moara havia virado um lago. Mais para a frente, um campo de futebol agora se prestava mais a pólo aquático. Chegamos na cidade com a missão de resolver o que pudéssemos no menor tempo possível. Compramos 70 pães, biscoitos de polvilho, queijo, água, aveia, refrigerante, pasta de dente e 15 escovas, papel higiênico, laranjas, maçãs e bananas, entre outras coisas. Não consegui comprar meias secas, meu objeto de desejo àquela hora. Na farmácia, ficamos sabendo que havia acontecido um soterramento na Barra, estrada que leva ao nosso sítio. No mercado, soubemos que havia vítimas. Telefonamos para Sampa, para resolver algumas coisas e avisar às famílias que estávamos bem. Acho que também tuitei alguma coisa.</p>
<p>Abastecemos o carro, tomamos a estrada de novo, e... mais uma barreira caída, atravessando as duas pistas. Michael reconheceu, do outro lado da barreira, o presidente da Câmara de Cunha, e saiu para conversar com ele. Neto vestia uma capa de chuva e empunhava um telefone. Contou que já havia acionado um trator que viria logo para limpar a barreira. Foi dele que soubemos mais sobre o desastre que tinha acontecido na estrada da Barra: a casa do Manolo tinha sido soterrada na madrugada, e a equipe de resgate não estava conseguindo chegar por causa das péssimas condições da estrada. Os vizinhos estavam se organizando para procurar as pessoas, com resultados desanimadores. Eu não conhecia a família, mas o choque da notícia foi forte. Fiquei triste. De repente, o que parecia ser só uma série de contratempos - algum tipo de comédia aventuresca levemente cínica - assumia uma gravidade maior. Agora havia vítimas, e vítimas com nomes. Michael conhecia o pessoal - eram os padrinhos de casamento da Dita e do Zé Russo - e também acusou o golpe.</p>
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<p><img alt="" src="http://farm5.static.flickr.com/4053/4257217383_9f860e4e58.jpg" /></p>
<p>O trator chegou e a barreira foi liberada. Seguimos com cautela até a pousada - contamos quinze barreiras caídas. Chegando lá, um belo almoço havia sido servido. A chuva ficava mais calma. Pouco depois, decidimos fazer uma tentativa de descer até a Barra. Deixaríamos um dos carros ali na pousada. Dividimos as compras e partimos.</p>
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<p><em>(esse relato continua <a href="http://efeefe.no-ip.org/blog/o-reveillon-das-muitas-barreiras-parte-ii" rel="nofollow">aqui</a>, contando sobre a descida a pé até a Barra...)</em></p>
<p><strong>Atualizando:</strong> esqueci um detalhe que pode ser importante, ou não - no dia que o Mauro demorou para chegar, a gente percebeu que havia alguma coisa errada quando perguntamos sobre a estrada e o Jamil contou que o ônibus (o único que liga o centro à Barra) ainda não tinha voltado - estava atrasado em duas horas.</p>barreiraschuvascunhadeslizamentosreveillontauaçuriSun, 10 Jan 2010 04:33:06 +0000felipefonseca6818 at http://efeefe.no-ip.org